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Tradução de Acadêmicos do Grande Rio 2026

Conheça a obra "A nação do mangue"

PT-BR

FR

Le caboclo vient, l'héritier de Zumbi

La nation est là

Elle ne s'incline pas devant le pouvoir

Écoute, on vient de la boue

C'est la résistance qui s'enflamme

Quand résonne le xequerê

Maison du ghetto ! Maison du ghetto !

C'est notre voix qui ne se tait pas

Le batuque sans peur, de plein droit, c'est le son des alfaias

Moi aussi je suis un crabe au bord de l'igarapé

Gabiru, le rat, travaille tôt, il ramasse les déchets de la marée


Manamauê maracatu

Saluba hé Nanã, yabá !

La vie pareille aux eaux

N'est pas douce comme la rivière

Ni salée comme la mer

La rive monte déjà vers la ville

Entre troncs et lianes, la rébellion fait un nœud

C'est la pensée populaire

Gramacho rencontre Capibaribe

Dans un monde libre, je veux te voir chanter

Freire, enseigne à un pays analphabète

Qui n'a pas compris le manifeste

De la conscience sociale

Chico, le manguebeat est dans la rue

Caxias fait partie de la lutte

Et la transforme en carnaval !

Respecte les tambours de mon ilê

Respecte la cadence de mon ganzá

Devant, il y a l'étendard de mon peuple

Pour bâtir un nouveau temps qui nous fait croire !


Je suis de la mangrove, le fils de la périphérie

Sur un palafitte, Grande Rio l'a annoncé

La pointe de lance est Daruê

Fais sonner le gonguê... la révolution a déjà commencé !

Lá vem caboclo, herdeiro de Zumbi

A nação está aqui

Não se curva ao poder

Escute, nossa gente vem da lama

Resistência que inflama

Quando toca o xequerê

Casa de gueto! Casa de gueto!

Nossa voz que não se cala

Batuque sem medo por direito, é o toque das alfaias

Eu também sou caranguejo à beira do igarapé

Gabiru trabalha cedo, cata o lixo da maré


Manamauê maracatu

Saluba ê Nanã, Yabá!

A vida parecida com as águas

Não é doce como o rio

Nem salgada feito o mar


A margem já subiu para cidade

Entre tronco e cipó, rebeldia dá um nó

Pensamento popular

Gramacho encontrou Capibaribe

Num mundo livre, quero ver você cantar

Freire, ensine um país analfabeto

Que não entendeu o manifesto

Da consciência social

Chico, Manguebeat tá na rua

Caxias comprou a luta

E transforma em carnaval!

Respeite os tambores do meu Ilê

Respeite a cadência do meu ganzá

À frente, o estandarte do meu povo

Pra erguer um tempo novo que nos faz acreditar!


Eu sou do mangue, filho da periferia

Sobre uma palafita Grande Rio anunciou

Ponta de lança é Daruê

Dobra o gonguê... a revolução já começou!

GLOSSÁRIO

Caboclo: Embora este termo já figure nos dicionários para designar uma pessoa mestiça de ascendência indígena e europeia, sua tradução literal empobreceria o texto. No contexto do maracatu e das culturas populares do Nordeste, o caboclo também pode designar uma figura simbólica ou espiritual ligada à terra, à resistência e à herança indígena.


Zumbi: Figura histórica imensa e herói da resistência negra no Brasil. Zumbi foi o último chefe do Quilombo dos Palmares no século dezessete.


Xequerê: Instrumento de percussão de origem africana constituído por uma cabaça envolta por uma rede de miçangas ou sementes. Seu timbre granulado acompanha os rituais do candomblé, os cortejos de afoxé e diversas tradições musicais do Nordeste.


Gueto: Em sua acepção contemporânea, o termo designa espaços urbanos marcados pela marginalização social e econômica. Aqui, estabelece um paralelo entre as periferias brasileiras e as do mundo inteiro, em diálogo com a estética e o pensamento do manguebeat.


Alfaias: Grandes tambores cilíndricos de pele dupla, afinados por um sistema de cordas tensionadas. Fundamentais no maracatu nação, produzem um som grave e poderoso que estrutura o conjunto rítmico.


Igarapé: Pequeno curso de água estreito de origem amazônica. Empregado aqui de maneira poética para evocar os canais escuros e sinuosos do manguezal do Recife, preservando uma imagem densa e orgânica do meio ambiente.


Gabiru: Originalmente, um rato grande. No Nordeste brasileiro, notadamente no imaginário social analisado por Josué de Castro, o termo designa metaforicamente populações atingidas pela fome e pela miséria extrema. Seu uso aqui constitui uma denúncia da desumanização social.


Manamauê: Fórmula de encantamento e vocal associada à estética do manguebeat. Evoca o transe, a rua e a fusão entre tradição e modernidade, notadamente em referência ao universo musical popularizado por Chico Science e Nação Zumbi.


Maracatu: Manifestação cultural afro-brasileira originária de Pernambuco. Associa música percussiva, canto, dança e encenação de uma corte real simbólica, herdada das tradições afrodiaspóricas.


Saluba: Saudação ritual dirigida à orixá Nanã nas religiões afro-brasileiras. Expressa um profundo respeito por essa entidade primordial ligada à lama e à origem da vida.


Nanã: Uma das mais antigas orixás do panteão afro-brasileiro. É associada à lama, à origem da vida e ao ciclo da morte. No contexto do manguezal, encarna a matriz primordial onde se encontram a água e a terra.


Yabá: Termo de origem iorubá que designa o conjunto de orixás femininos. Remete a figuras ancestrais e matriarcais que governam os elementos da natureza. Traduzi-lo por deusas seria redutor.


Gramacho: Referência ao Jardim Gramacho, antigo maior lixão a céu aberto da América Latina, situado em Duque de Caxias. No samba, simboliza a periferia marginalizada e estabelece um elo poético com as realidades sociais do Recife.


Capibaribe: Rio que atravessa a cidade do Recife. Suas águas, em interação com o oceano e o manguezal, constituem um elemento central do ecossistema e do imaginário do manguebeat.


Freire: Paulo Freire, educador brasileiro e figura mundial da pedagogia crítica e da educação popular. É invocado aqui como símbolo da consciência social e da leitura política do mundo.


Chico: Francisco de Assis França, conhecido como Chico Science. Artista central do manguebeat e líder da Nação Zumbi, projetou a cultura do mangue no cenário nacional e internacional.


Manguebeat: Movimento cultural nascido no Recife nos anos noventa. Articula crítica social e inovação estética misturando tradições locais como o maracatu a influências globais como rock, hip-hop e música eletrônica.


Caxias: Referência a Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense e berço da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio. O termo simboliza o engajamento da periferia na luta cultural e social.


Ilê: Palavra iorubá que significa casa ou terra. No candomblé, designa o terreiro, espaço sagrado de culto e de vida comunitária.


Ganzá: Instrumento de percussão do tipo chocalho cilíndrico, geralmente de metal ou bambu. Assegura a continuidade rítmica no samba e no maracatu.


Mangue: Ecossistema costeiro tropical composto por árvores próprias e raízes entrelaçadas, desenvolvendo-se na lama. No samba, simboliza simultaneamente a sobrevivência, a fertilidade e a resistência das populações marginalizadas.


Palafita: Habitação sustentada por estacas construída sobre a água ou a lama, característica das zonas de mangue. O termo é utilizado aqui para designar as moradias precárias das populações periféricas.


Grande Rio: Acadêmicos do Grande Rio, escola de samba originária de Duque de Caxias.


Daruê: Referência ao Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, fundado no Recife. Lugar emblemático de formação artística e de transmissão cultural afro-brasileira, ligado ao surgimento do manguebeat.


Gonguê: Instrumento de percussão do maracatu constituído por um grande sino metálico. Seu timbre agudo e penetrante serve de referência rítmica e de comando no conjunto musical.







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