


Tradução de Estação Primeira de Mangueira 2026
Conheça a obra "Mestre Sacaca do encanto tucuju - O guardião da Amazônia negra"
PT-BR
FR
J'ai planté mes racines
À l'extrême nord où commence mon pays
Les feuilles sèches m'ont guidée au turé
Peinte en vert et rose, génipa et rocou
Arbre-femme, Mangueira presque centenaire
Une nation incarnée
Héritière quilombola, descendante palikur
Sillonnant l'Amazone dans la transe du caxixi
L'eau court, jaillit la vie de l'Oiapoque jusqu'au Jari
Çai erê, babalawo, maître Sacaca
Çai erê, babalawo, maître Sacaca
Je t'invoque du milieu du monde vers l'intérieur de la forêt
Je t'invoque du milieu du monde vers l'intérieur de la forêt
Salut au guérisseur, docteur de la forêt
Preto Velho, saravá !
Macère feuilles, écorces et herbes
Embouteille le remède, viens tout éclairer
Brûle feuilles, écorces et herbes, saravá !
Le Noir dans la cadence du marabaixo
Il affermit le corps dans le rythme
Avec des ladrões et des litanies qui résonnent des cales
Je lève et je consacre mon manteau
Aux bénédictions du Saint-Esprit
Et de Saint Joseph de Macapá
Je suis gira, batuque et dançadeira (Areia !)
La main de cuir de l'amassador
L'enchantement de la benzedeira
Que l'Amazonie noire a éternisé
Yá, Benedita de Oliveira, mère du Morro de Mangueira
Bénis l'esprit tucuju
La magie de mon tambour t'a enchantée dans le jequitibá
J'ai appelé le peuple d'ici, j'ai réuni le peuple de là-bas
Dans l'Estação Primeira de l'Amapá
Finquei minha raiz
No extremo norte onde começa o meu país
As folhas secas me guiaram ao turé
Pintada em verde-e-rosa, jenipapo e urucum
Árvore-mulher, Mangueira quase centenária
Uma nação incorporada
Herdeira quilombola, descendente palikur
Regateando o Amazonas no transe do caxixi
Corre água, jorra a vida do Oiapoque ao Jari
Çai erê, babalaô, Mestre Sacaca
Çai erê, babalaô, Mestre Sacaca
Te invoco do meio do mundo pra dentro da mata
Te invoco do meio do mundo pra dentro da mata
Salve o curandeiro, doutor da floresta
Preto Velho, saravá
Macera folha, casca e erva
Engarrafa a cura, vem alumiar
Defuma folha, casca e erva, saravá
Negro na marcação do marabaixo
Firma o corpo no compasso
Com ladrões e ladainhas que ecoam dos porões
Ergo e consagro o meu manto
Às bençãos do Espírito Santo
E São José de Macapá
Sou gira, batuque e dançadeira (Areia!)
A mão de couro do amassador
Encantaria de benzedeira
Que a Amazônia Negra eternizou
Yá, Benedita de Oliveira, mãe do Morro de Mangueira
Abençoe o jeito tucuju
A magia do meu tambor te encantou no Jequitibá
Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá
Na Estação Primeira do Amapá
GLOSSÁRIO
Turé: Grande ritual sagrado e festivo dos povos indígenas da região do Oiapoque no Amapá. É uma cerimônia conduzida pelo xamã pajé em agradecimento aos karuãna, seres invisíveis e sobrenaturais da floresta, pelas curas físicas e espirituais.
Jenipapo: Fruto originário das regiões tropicais das Américas, muito presente em todo o Brasil, cujo suco é amplamente utilizado pelas populações indígenas para a pintura corporal tradicional, geralmente com uma coloração preta ou azul escura, carregada de simbolismo espiritual.
Urucum: Fruto nativo do qual se extrai um pigmento vermelho intenso. Assim como o jenipapo, é utilizado nos rituais indígenas para pinturas e proteção, tingindo a floresta de vermelho.
Mangueira: A escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Na canção, a agremiação personifica a narradora da história, poeticamente designada como uma árvore-mulher quase centenária que criou raízes na floresta para contar esta saga.
Quilombola: Descendentes das comunidades formadas por povos negros escravizados que resistiram e buscaram a liberdade nos quilombos. No Amapá, representam uma parte fundamental da formação do conceito de Amazônia negra.
Palikur: Um dos povos indígenas originários que habitam a região da bacia do rio Uaçá, no Oiapoque, norte do Amapá. Representam a raiz profunda da ancestralidade amapaense do enredo.
Caxixi: No contexto deste enredo e do ritual turé, o caxixi corresponde a uma bebida alcoólica fermentada e sagrada, geralmente à base de mandioca, consumida pelos indígenas para induzir o transe e a conexão com o mundo espiritual, distinguindo-se do chocalho de palha homônimo utilizado na capoeira.
Do Oiapoque ao Jari: Expressão que delimita geograficamente o estado do Amapá de ponta a ponta, do extremo norte no rio Oiapoque até o sul no rio Jari.
Çai erê: Saudação dos povos originários indígenas. É o grito que batiza as festividades e evoca o sagrado na floresta. Com o tempo e a miscigenação, este grito sagrado de saudação acabou batizando a celebração que conhecemos hoje sob o nome de Sairé.
Babalaô: Título de origem iorubá que significa Pai do Segredo, a autoridade máxima no oráculo de Ifá. Ao ser chamado de Xamã Babalaô, Mestre Sacaca é reconhecido por sua dupla autoridade espiritual englobando o xamã da floresta indígena e o babalaô da religião de matriz africana.
Mestre Sacaca: Raimundo dos Santos Souza, a personagem central do enredo. Foi curandeiro, marabaixeiro e profundo conhecedor das ervas da Amazônia. Trata-se de uma figura mítica do Amapá que uniu os saberes afro-indígenas, tornando-se o grande guardião da Amazônia negra.
Preto Velho: Entidade ancestral de extrema sabedoria nas religiões afro-brasileiras. No enredo, simboliza os espíritos dos antigos curandeiros que ensinam a magia das mandingas e o segredo das ervas.
Saravá: Saudação sagrada afro-brasileira que significa salve, emanando força, proteção e energia sagrada do axé.
Marabaixo: A maior manifestação cultural afro-amapaense. Combina música, dança em roda e ritos afro-católicos, nascida nas comunidades negras de Macapá como forma de lamento, de resistência e, na atualidade, de grande celebração.
Ladrões: Os versos principais das canções de marabaixo. Recebem este nome porque os cantores improvisavam as rimas roubando histórias, boatos e eventos do cotidiano da comunidade para transformá-los em música.
São José de Macapá: O padroeiro da capital do Amapá, figura central do sincretismo religioso na cultura do marabaixo e das festividades locais.
Gira: O movimento circular e sagrado. Faz referência tanto à roda onde as mulheres dançam no marabaixo quanto à corrente espiritual nos terreiros de umbanda e de matriz africana.
Batuque: Uma festa e manifestação cultural afro-quilombola específica do estado do Amapá, marcada pelo ritmo intenso dos tambores e pelo sincretismo, diferindo das práticas religiosas gaúchas homônimas.
Dançadeira: Mulheres que conduzem a dança no marabaixo e no batuque. Com suas saias rodadas, elas balançam e tiram o vento, assumindo o posto de grandes guardiãs da estética e da energia da roda.
Areia: Grito de entusiasmo e de força entoado nas rodas de marabaixo e de batuque no Amapá. Segundo as preciosas explicações do compositor Pedro Terra, esta exclamação atua como o equivalente nortista do tradicional levanta poeira das rodas de samba do sudeste. Consiste em um convite a intensificar a dança, a elevar a energia e a fazer tremer o chão da roda.
Amassador: Nome de um dos tambores principais do batuque do Amapá. É o instrumento que marca os sons mais graves e constantes, amassando a base do ritmo.
Benzedeira: Mulheres sábias da comunidade que utilizam folhas sagradas, ramos e rezas orais tradicionais para curar doenças físicas e males espirituais conhecidos como quebrantos.
Amazônia negra: Conceito fundamental do enredo que desmistifica a ideia de uma Amazônia habitada unicamente por povos indígenas ou brancos, destacando a imensa, rica e histórica presença da população negra e quilombola que contribuiu para forjar a cultura do extremo Norte do Brasil.
Yá: Deriva do iorubá iyá, que significa mãe. Título de respeito máximo e de hierarquia na cultura afro-brasileira para designar as matriarcas, as mães de santo ou os orixás femininos.
Benedita de Oliveira: Uma das grandes matriarcas e figuras fundadoras da história do Morro de Mangueira. Sua menção no samba serve de elo para conectar a linhagem ancestral do Rio de Janeiro à do Amapá.
Morro de Mangueira: Berço da escola Estação Primeira de Mangueira, na zona norte do Rio de Janeiro, símbolo histórico da resistência negra e do samba.
Tucuju: Originalmente, os tucujus formaram um dos primeiros povos indígenas do Amapá. Hoje, a palavra foi ressignificada e define a identidade tucuju abraçando a forma de ser, a cultura e o pertencimento dos amapaenses.
Jequitibá: Metáfora poética para a própria escola de samba Mangueira. Faz alusão à canção clássica Jequitibá do Samba de José Ramos, que descreve a escola verde e rosa como uma árvore majestosa e resistente, que suporta as machadadas e permanece de pé.
Estação Primeira do Amapá: Uma fusão poética que encerra o desfile. Simboliza que, ao incorporar a alma de mestre Sacaca e a cultura tucuju, a Estação Primeira de Mangueira tornou-se, neste carnaval, a própria representante do estado do Amapá na Sapucaí.