


Tradução de Estação Primeira de Mangueira 2027
Conheça a obra "Oyá por nós"
PT-BR
FR
Quando toca o adaró
Somos tantas numa só
A nação evoca minha mãe Iansã
Vira tempo, tempestade
Pra varrer toda maldade, sob os raios da manhã
Ah! Eparrey!
Meu povo é trovoada
O tambor do recomeço
Quando vira a encruzilhada...
Sou rebeldia de Oluafefé
Pele de búfalo no corpo de mulher!
Afulelé adê ô, deixa incorporar
Olonifé de Ogum, forja pra lutar
Paixão que atiça, fogo de Akará
No coração de Xangô, deixa ela girar!
Iyá Mesan Orun...
Treme-terra
Desce o morro, sobe o rum… é guerra!
Bate o oguê, que o sangue tem dendê
Tá pra nascer quem manda nela!
Ela dança no ilê axé
Dá caminho no axexê
Faz do seu furacão, balé
Dona do ajerê
Meu orí, tua coragem, liberdade obirín
Porque não existe macho que levante a mão pra mim!
É que eu sou preta, macumbeira e de Oyá
Sou ventania que ninguém pode afrontar
Colo de Ketu, solo do gueto, força de Orixá
Quem tem fé na quarta-feira sabe que eu não ando só
O Brasil da intolerância eu despacho no ebó
Nada fica no caminho, a rainha vai passar
Segura que o xirê vai começar!
Oyá Tetê, Oyá Tetê, Oyá
Oyá Tetê, Oyá Mangueira Yabá!
Ê mamãe, traz de novo teu axé…
Relampejou pra vitória
Motumba Lè!
Quand résonne l'adaró
Nous sommes tant de femmes en une seule
La nation invoque ma mère Iansã
Le temps change, la tempête se lève
Pour balayer tout le mal sous les éclairs du matin
Ah ! Eparrey !
Mon peuple est tonnerre
Le tambour du recommencement
Au détour du Carrefour..
Je suis la rébellion d'Oluafefé
Peau de buffle sur le corps d'une femme !
Afulelé ! Adê ô ! Laisse-moi « incorporer »
Olonifé d'Ogum, forge-moi pour combattre
La passion qui attise, le feu d'akará
Dans le cœur de Xangô : laisse-la tourner !
Iyá Mesan Orun...
La terre tremble !
Le morro descend, le rum s'élève... c'est la guerre !
Frappe l'oguê, car le sang porte le dendê
Il n'est pas encore né, celui qui osera la commander !
Elle danse dans l'ilê axé
Elle ouvre le chemin lors de l'axexê
Elle fait de son ouragan un ballet
Maîtresse de l'ajerê
Mon orí, ton courage, liberté, obirín
Parce qu'aucun homme n'osera lever la main sur moi !
Car je suis noire, macumbeira et d'Oyá
Je suis un grand vent que personne ne peut affronter
Le giron de Ketu, sol du ghetto, la force des orishas
Qui a foi au mercredi sait que je ne marche pas seule
Le Brésil de l'intolérance, je le chasse dans l'ebó
Rien ne restera sur mon chemin, la reine va passer
Accroche-toi, le xirê va commencer !
Oyá tetê, Oyá tetê, Oyá
Oyá tetê, Oyá Mangueira yabá !
Hé, maman, ramène-nous ton axé...
Un éclair a jailli pour la victoire
Motumba lè !
GLOSSÁRIO
Adaró: Conhecido igualmente como Quebra-Pratos, é toque e ritmo musical de matriz africana dedicado a Oyá (Iansã), a orixá dos ventos, dos raios, das tempestades e das grandes transformações. Na dança e no simbolismo artístico, o corpo se torna passagem para a corporeidade de Oyá. O giro do corpo e os braços e as mãos em movimentos circulares evocam os redemoinhos e a potência dos ventos de movimentar caminhos.
Iansã: Também conhecida como Oyá, é uma poderosa orixá das religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.
Eparrey: Saudação sagrada dedicada a Oyá.
Quando vira a encruzilhada: O ponto de encontro de forças e a morada de Exu e Pombogira. No contexto do carnaval, a própria Sapucaí transforma se na maior encruzilhada do mundo, onde o asfalto atua como o congá das ruas. Consiste no local onde o samba encontra a sua estratégia de resistência contra a intolerância religiosa através de um transe coletivo, alinhando o campo energético de milhares de pessoas sob a regência das entidades guardiãs para a abertura dos caminhos.
Oluafefé: Vem de Olúafẹ́ẹ́fẹ́. Título iorubá dedicado a Oyá, exaltando a sua qualidade como senhora dos ventos. Aparece em cânticos tradicionais de culto aos orixás e na reverência a Oyá.
Afulelé! Adê ô!: O termo aparece principalmente em cantigas de culto dedicadas a Oyá. É usado em versos rituais como "Afulele Afulele adeo. Afulele Oya aba kobelajo afulele...", entoados para saudar ou invocar a força da divindade.
Olonifé de Ogum: A amada de Ogum. Remete à ligação profunda entre Oyá e o orixá Ogum. Foi a primeira esposa dele na mitologia dos orixás. Embora tenha sido o primeiro grande amor e marido de Iansã (com quem ela viveu mitos famosos, como o da pele de búfalo), ela posteriormente o deixou para se unir ao orixá Xangô.
Fogo de Akará: Do iorubá, àkàrà significa literalmente "bola de fogo" (aká = bola, rà = fogo ou com sabor de fogo), referindo-se à cor avermelhada e à forma do bolinho de feijão-fradinho frito no azeite de dendê, que lembra uma brasa viva. Ritualmente, o àkàrà representa o fogo que Oyá manipula e engole. Em certas qualidades da divindade, como Oyá Kará, ela dança portando o fogo sagrado. Quando o bolinho passou a ser comercializado nas ruas (através das chamadas "escravas de ganho" na Bahia), o termo àkàrà uniu-se a jẹ (comer), originando a palavra acarajé.
Xangô: Orixá da justiça. A sinopse do enredo destaca o grande encontro entre ele e Oyá, originando uma paixão de revoluções capaz de quebrar grilhões e mudar o passado.
Iyá Mesan Orun: Título sagrado de Oyá (Iansã), que significa que significa "mãe dos nove céus" ou "mãe dos nove espaços".
Desce o morro, sobe o rum: O morro representa o berço da Estação Primeira de Mangueira. O rum é o maior e mais grave atabaque do Candomblé. O verso une a descida da comunidade para o asfalto junto à elevação do toque do rum.
Bete o oguê: No Candomblé, bater o oguê (ou percutir o oguê) é o ato ritualístico de bater um par de chifres sagrados (geralmente de boi, touro ou búfalo) para evocar e saudar as energias dos orixás da caça e das matas, em especial Oxóssi, além de estar ligado também a Oyá e Obá. O oguê (do iorubá ògué, que significa chifre) não é considerado um instrumento musical comum, mas sim um símbolo sagrado de poder, fartura e ancestralidade. O som produzido pela batida dos chifres imita o anúncio de uma caçada bem-sucedida. Ele serve para chamar o orixá para a roda (o xirê), marcando o ritmo e anunciando sua vitória sobre a escassez.
O sangue tem dendê: O dendê é o óleo ardente como o sangue do mundo. Dizer que o sangue tem dendê revela a energia vital e a mancha presente que não se esvai.
Ilê axé: Ilê axé significa "casa de axé", "casa de energia" ou "casa de bênção" no contexto das religiões de matriz africana. É o nome dado ao espaço físico e à comunidade de um terreiro onde se cultuam os orixás e os ancestrais e representa o local de acolhimento, união, preservação da ancestralidade e transmissão de saberes entre a família de santo.
Dá caminho no axexê: O ritual fúnebre do candomblé, realizado após o sepultamento de uma pessoa iniciada ou de um cargo importante na hierarquia do terreiro. É o inverso do ritual de iniciação (feitura de santo). O sacerdote desfaz os laços espirituais do orixá protetor com o corpo físico que partiu, com o intuiuto de libertar a alma da matéria e ajudar o espírito a retornar ao Orum (o mundo espiritual e dos ancestrais) em paz. Envolve cantos, danças, rezas e oferendas específicas em clima de respeito e silêncio, sem caráter festivo. Na sinopse, é dito que a senhora dos nove céus (Oyá) encaminha os ancestrais nesse ritual.
Ajerê: O ajerê consiste em uma panela (de barro ou tacho) que carrega brasas acesas e os segredos do fogo sagrado. Segundo os itàns (mitos e histórias yorubás), Olódùmarè confiou a Oyá a tarefa de transportar a panela com o akará de fogo (o poder e a energia de Xangô). No ritual, o fogo ardente e a justiça de Xangô se encontram com o vento, a velocidade e a força transformadora de Oyá, onde o vento aviva e conduz o fogo.
Orí: Na língua iorubá, orí significa literalmente cabeça. No entanto, na espiritualidade das religiões de matriz africana, o termo vai muito além da parte física do corpo. Ele representa o centro da consciência, a essência individual, a intuição e o guia supremo que direciona o destino de cada ser humano
Obirín: Palavra de origem iorubá que significa mulher, exaltando a força guerreira daquelas que não se curvam.
Macumbeira e de Oyá: Reivindicação identitária e afirmativa da mulher negra que pratica a religião de matriz africana e carrega a proteção da senhora dos ventos.
Colo de Ketu: A nação Ketu é uma das mais tradicionais matrizes do candomblé. O colo representa o acolhimento, a proteção e o abraço ancestral deste berço religioso.
Eu despacho no ebó: O ebó é uma oferenda ancestral de limpeza. Despachar a intolerância no ebó significa utilizar o ritual sagrado para afastar os males, limpando e varrendo o preconceito da sociedade brasileira.
Xirê: A roda de dança sagrada onde os orixás são invocados e celebrados na festividade.
Oyá Tetê: Cantiga e louvor tradicional entoado para reverenciar Iansã nas rodas de candomblé.
Yabá: Orixás femininos.
Axé: A energia divina plantada e firmada pelo povo de santo, constituindo a força vital que conduz a escola.
Motumba lè: Saudação de profundo respeito nas religiões de matriz africana.