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Tradução de Portela 2024

Conheça a obra "Um defeito de cor"

PT-BR

FR

Le samba est véritablement noir
C'est la fine fleur, le jardin du ghetto
Qui exhale notre affection
Berce-moi, oh mère, au berceau de la saudade
Pour faire de l'identité notre livre ouvert
Omotunde, je suis venu du ventre de l'amour
Omotunde, car ainsi qu'elle m'a baptisé
L'âme de Jeje et la justice de Xangô
Ton exemple fait de moi un vainqueur

L'enseignement du féminin sacré
Tel un aigle, il fend le temps
Je te rencontre en regardant la mer
L'inspiration à fleur de peau noire
Ta voix, de l'encre et une plume
Dans le bleu où regne Iemanjá​


Gloire à la lune du Bénin
Vive le peuple de Benguela
Cette lumière qui brille en moi
Elle habite au cœur de Portela
Telle l'histoire de Mahin
La liberté se rebelle
Je suis né quilombo et j'ai grandi favela !

Ora yê yê, Oxum, Kalunga !
C'est une main qui accueille l'autre, c'est macumba!
Ton visage porte l'adê
Dans mon alguidar, il y a du dendê
Le sang qui coule dans mes veines est Malê !

À chaque prière, à chaque rêve, nêga
Je te ressens, nêga, où que tu sois
À chaque chant, à chaque rêve, nêgo
Je veille sur toi, nêgo, où que je sois

Saravá, Kehinde ! Ton nom vit !
Ton peuple est libre ! Ton fils a vaincu, oh femme !
Sur chacun de nous, déverse ton axé !

O samba genuinamente preto
Fina flor, jardim do gueto
Que exala o nosso afeto
Me embala, oh! Mãe, no colo da saudade
Pra fazer da identidade nosso livro aberto
Omotunde, vim do ventre do amor
Omotunde, pois assim me batizou
Alma de Jeje e a justiça de Xangô
O teu exemplo me faz vencedor
Sagrado feminino ensinamento
Feito águia corta o tempo
Te encontro ao ver o mar
Inspiração a flor da pele preta
Tua voz, tinta e caneta
No azul que reina lemanjá

Salve a lua de Benim
Viva o povo de Benguela
Essa luz que brilha em mim
E habita a Portela
Tal a história de Mahin
Liberdade se rebela
Nasci quilombo e cresci favela!

Ora yê yê, Oxum, Kalunga!
É mão que acolhe outra mão, macumba!
Teu rosto vestindo o adê
No meu alguidar tem dendê
O sangue que corre na veia é Malê!
Em cada prece, em cada sonho, nêga
Eu te sinto, nêga, seja onde for
Em cada canto, em cada sonho, nêgo
Eu te cuido, nêgo, cá de onde estou

Saravá Kehinde! Teu nome vive!
Teu povo é livre! Teu filho venceu, mulher!
Em cada um de nós, derrame seu axé!

GLOSSÁRIO

Gueto: No samba, o gueto encontra um novo sentido. Ultrapassa o espaço de exclusão para se tornar o jardim onde floresce a cultura negra, a fina flor, o jardim do gueto. É a favela como quilombo moderno.


Omotunde: Nome iorubá do filho da protagonista, Kehinde ou Luiza Mahin. Significa o filho voltou. Este nome representa a esperança da mãe e a reconciliação com a ancestralidade rompida pela escravidão.


Jeje: Nação do candomblé, oriunda do Benim. Representa a alma e a base religiosa da protagonista.


Xangô: O orixá da justiça, do fogo e do trovão. No samba, simboliza a busca por reparação histórica, a justiça de Xangô.


Iemanjá: A orixá rainha do mar nas religiões de matriz africana. Ela reina sobre o azul da Portela e acolhe os espíritos daqueles que se perderam durante a travessia.


Benim: Referência geográfica e espiritual ao reino do Daomé, berço da cultura jeje e origem de Kehinde. A lua do Benim guia a memória.


Benguela: Porto em Angola que representa a matriz banta. Citar Benim e Benguela no mesmo samba demonstra a diversidade das nações africanas que construíram o Brasil.


Portela: Uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, fundada em 1923.


Mahin: O grupo étnico Mahi e o sobrenome de Luísa, ligando-a diretamente à linhagem de guerreiros e à Revolta dos Malês.


Quilombo: Muito além de um refúgio histórico, consiste em um estado de espírito de resistência política e social. Nascer quilombo significa nascer em luta.


Favela: A continuidade urbana do quilombo. É o lugar onde o povo negro cresce e mantém vivos os fundamentos, apesar da opressão.


Ora yê yê: Saudação à orixá das águas doces, do amor e da fertilidade. Trata-se da proteção feminina que embala o enredo.


Oxum: Orixá das águas doces, do ouro, do amor e da fertilidade. Divindade maternal que encarna a beleza, a prosperidade e a força feminina sagrada.


Calunga: O mar como grande cemitério ancestral e portal entre os mundos. A Calunga Grande é o oceano que separou mães e filhos.


Macumba: Aqui, a palavra se despe de preconceitos. Trata-se da mão que acolhe, o ritual que conecta o humano ao sagrado e à comunidade.


Adê: A coroa cerimonial. A coroação de Kehinde pelo adê marca a consagração de uma rainha escravizada, triunfante e invicta.


Alguidar: O recipiente, o vaso de barro onde se deposita a comida sagrada como oferenda.


Dendê: O óleo de palma que ferve e dá sabor à vida e ao ritual. Ter dendê no alguidar significa possuir fundamento e energia vital.


Malê: Refere-se aos negros muçulmanos alfabetizados que lideraram o maior levante de escravizados na Bahia. O sangue Malê atua como sinônimo de intelecto e revolta.


Nêga/nêgo: No samba, essas palavras perdem o peso pejorativo e ganham um tom de afeto e cuidado entre mãe e filho.


Saravá: Saudação de respeito às entidades e ao sagrado. É o reconhecimento da força espiritual de Kehinde.


Kehinde: O nome iorubá da protagonista. Reivindicar este nome atua como o ato supremo de resistência contra o batismo forçado dos colonizadores.


Axé: Espiritualmente, a força vital, o poder de fazer as coisas acontecerem. O pedido final do samba clama para Kehinde derramar seu axé sobre todos nós.







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