


Tradução de Unidos da Tijuca 2026
Conheça a obra "Carolina Maria de Jesus"
Letra original e versão traduzida para o francês:
Eu sou filha dessa dor
Que nasceu no interior de uma saudade
Neta de Preto Velho
Que me ensinou os mistérios
Bitita cor, retinta verdade
Me chamo Carolina de Jesus
Dele herdei também a cruz
Olhe em mim, eu tenho as marcas
Me impuseram sobreviver
Por ser livre nas palavras
Condenaram meu saber
Fui a caneta que não reproduziu
A sina da mulher preta no Brasil
Os olhos da fome eram os meus
Justiça dos homens não é maior que a de Deus
Meu quarto foi despejo de agonia
A palavra é arma contra a tirania
Sonhei sobre as páginas da vida
Ilusões tolhidas no sistema algoz
Que tenta apagar nossa grandeza
Calar a realeza que resiste em nós
Dos salões da burguesia aos barracos do Borel
Onde nascem Carolinas, não seremos mais os réus
Por tantas Marias que viram seus filhos crucificados
Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado
Meu país nasceu com nome de mulher
Sou a liberdade, mãe do Canindé
Muda essa história, Tijuca!
Tira do meu verso a força pra vencer
Reconhece o seu lugar e luta
Esse é o nosso jeito de escrever
Je suis la fille de cette douleur
Née au cœur d’une saudade
Petite-fille de Preto Velho
Qui m’a appris les mystères
Bitita couleur, retinta vérité
Je m’appelle Carolina de Jesus
De lui, j’ai aussi hérité la croix
Vois en moi, je porte les marques
On m’a imposée la survie
Pour être libre dans les mots
On a condamné mon savoir
J’ai été la plume qui n’a pas reproduit
Le calvaire de la femme noire au Brésil
Les yeux de la faim étaient les miens
La justice des hommes n’est pas plus grande que celle de Dieu
Ma chambre fut le dépotoir de l’agonie
Le verbe est une arme contre la tyrannie
J’en ai rêvé au fil des pages de la vie
Des illusions bridées par le système oppressant
Qui tente d’effacer notre grandeur
Et de taire la royauté qui résiste en nous
Des salons de la bourgeoisie jusqu’aux barracos du Borel
Où naissent les Carolinas, nous ne serons plus les accusés
Pour toutes les Marias qui ont vu leurs fils crucifiés
Dans les lignes de la vie, le verbe à vif, j’ai laissé mon héritage
Mon pays est né sous un nom de femme
Je suis la liberté, mère du Canindé
Change cette histoire, Tijuca !
Puise dans mes vers la force pour vaincre
Reconnais ta place et entre en lutte
C’est notre façon d’écrire
GlossÁrio:
Saudade: Mais do que nostalgia, é a presença da ausência. No enredo, remete às raízes de Carolina no interior de Minas Gerais (Sacramento), à memória dos seus ancestrais e à sabedoria transmitida oralmente pelo seu avô Benedito antes mesmo dela dominar as letras.
Preto Velho: Entidade venerada nas religiões de matriz africana, símbolo de sabedoria, paciência e cura. Carolina é apresentada como neta de Preto Velho, o que a conecta diretamente à linhagem da resistência negra e aos mistérios da oralidade e do terreiro.
Bitita cor: Bitita era o apelido de infância de Carolina. A palavra deriva de "mbita", do idioma xichangana (Moçambique), que significa "panela de barro". O diminutivo bitita designa algo feito desse barro, de cor ocre ou preta. O samba une o nome à cor para mostrar que sua identidade negra, moldada no barro da ancestralidade e da escravidão, forjou a sua coragem.
Retinta: Jamais traduzida. Retinta é a pele negra em seu tom mais escuro e combativo. É uma palavra de afirmação política. A "retinta verdade" de Carolina é a sua escrita crua que a elite branca tentou, mas não conseguiu apagar.
Carolina de Jesus: A grande homenageada. Mulher preta, favelada e catadora de papel que rompeu o cânone e se tornou uma intelectual magistral. O enredo conserta a história: ela não foi apenas um objeto exótico que escrevia, mas a majestade do verbo em carne viva que expôs o Brasil subterrâneo.
Barracos do Borel: O Morro do Borel é o berço da Unidos da Tijuca. Barraco é a arquitetura da exclusão e da resistência da favela. O samba faz do Borel o megafone contemporâneo de Carolina, unindo o morro carioca às vielas de sua história.
Carolinas: O uso no plural transcende a figura histórica. Representa a semente deixada por ela: todas as mulheres pretas, periféricas e marginalizadas que hoje continuam a subverter a ordem, a escrever e a reivindicar seu espaço.
Tantas Marias: Uma denúncia contundente. Maria é o nome mais comum do Brasil, muitas vezes reduzido ao trabalho doméstico (como Carolina também foi). O samba escancara que a pátria que nasceu com nome sagrado e feminino (Santa Cruz) é a mesma que crucifica essas "Marias" na base da pirâmide, perdendo seus filhos para a violência.
Canindé: A favela em São Paulo onde Carolina fez do livro Quarto de Despejo a fortaleza de suas produções. É o território físico de sua dor, a margem para onde a cidade a empurrou como "objeto fora de uso" e de onde sua voz ecoou para o mundo.
Tijuca: É a G.R.E.S. Unidos da Tijuca. Ao clamar "muda essa história, Tijuca!", a comunidade assume a responsabilidade política de usar o desfile da Sapucaí como arma de enfrentamento para reescrever a história oficial do Brasil.
Glossaire :
Saudade : Bien plus qu'une simple nostalgie, c'est la présence de l'absence. Dans le défilé, elle évoque les racines de Carolina à Minas Gerais, la mémoire de ses ancêtres et la sagesse transmise oralement.
Preto Velho : Entité vénérée dans les religions afro-brésiliennes, symbole de sagesse ancestrale et de guérison. Carolina est présentée comme la petite-fille de Preto Velho, ce qui la relie à la lignée de la résistance noire et aux mystères de la tradition orale.
Bitita couleur : Bitita était le surnom d'enfance de Carolina. Le terme vient de mbita (langue changana du Mozambique), qui signifie « pot en argile ». Son diminutif, bitita, désigne une chose issue de cette argile, de couleur ocre ou noire. Le samba associe ce nom à sa couleur pour montrer que son identité, façonnée dans l'argile de ses ancêtres, a forgé son courage.
Retinta vérité : Intraduisible par de simples mots comme ébène ou noire. Retinta désigne la peau noire dans sa nuance la plus sombre et combative. La « vérité retinta » de Carolina est son écriture brute que l'élite a tenté, en vain, d'effacer.
Carolina de Jesus : La grande honorée du défilé. Femme noire, habitante de favela et ramasseuse de papier, devenue une intellectuelle magistrale. L’enredo répare l'Histoire : elle n'était pas un objet exotique qui écrivait, mais la majesté du verbe à vif qui a exposé le Brésil souterrain.
Barracos du Borel : Le Morro do Borel est le berceau de l'école Unidos da Tijuca. Le barraco est l'architecture de l'exclusion et de la résistance de la favela. Le samba fait du Borel le mégaphone contemporain de Carolina.
Carolinas : L'usage au pluriel représente la graine qu'elle a semée : toutes les femmes noires, périphériques et marginalisées qui continuent aujourd'hui de subvertir l'ordre, d'écrire et de revendiquer leur espace.
Toutes les Marias : C'est une dénonciation poignante. Maria est le prénom le plus commun au Brésil, souvent réduit au travail domestique. Le samba révèle que la patrie née sous un nom sacré et féminin (Santa Cruz qu'en traductio libre devient Sainte-Croix) est la même qui crucifie ces Marias au bas de l'échelle sociale.
Canindé : La favela de São Paulo où Carolina a fait de son livre Le Dépotoir sa forteresse littéraire. C'est la marge vers laquelle la ville l'a repoussée comme un objet hors d'usage et d'où sa voix a résonné.
Tijuca : L'école de samba Unidos da Tijuca. En scandant "change cette histoire, Tijuca !", la communauté assume la responsabilité politique d'utiliser le défilé comme une arme pour réécrire l'Histoire officielle du Brésil.